INTRODUÇÃO

Muito já se debateu sobre o que é o tempo. Jamais, porém, qualquer pessoa sã deixou de se submeter a ele. Uma expressão do tempo é o ano. A cada ano, temos, por definição, novos acontecimentos; é sobre isso que pretendo falar aqui: contemplemos os lançamentos do ano passado… lançamentos de black metal. Não pretendo fazer uma introdução ao gênero nem dissecar os materiais aqui citados, mas apenas deixar registrada a minha lista. Na verdade, ela deveria ter sido publicada bem antes, porém houve muita enrolação de minha parte — mas isso também é Schedios. Várias listas do tipo foram publicadas no final de 2023 e já estamos em 2024, mais especificamente em março. Quis fazer uma lista sincera — e isso, claro, tem relação direta com o tempo dedicado a escutar as músicas. É humanamente impossível (ou quase isso) escutar todos os lançamentos de um ano, mas ouvi vários deles e penso que agora posso emitir uma opinião mais ou menos razoável tendo como base o meu gosto pessoal — mas, assumo, consultei várias listas de melhores do ano e acabei por não ver alguns dos favoritos dos outros. Direi algumas palavras, então, sobre os meus 25 lançamentos de black metal favoritos do ano de 2023. Não colocarei aqui apenas álbuns completos, serei mais abrangente, escolhendo todos os formatos de publicação (com exceção de singles); também é muito — muito — importante saber que eu não concordo necessariamente com as letras e ideologias das bandas citadas. Para realizar essa tarefa, compilei breves resenhas dos materiais participantes; textos, aliás, improvisados e sem parágrafos. Nem há necessidade de tanto polimento aqui, certo? Trata-se de uma espécie de texto à la bloco de notas, em realidade. Trata-se de… uma experiência.

Vídeo reunindo todas as faixas destacadas:

Observação (23/09/2024): O álbum Resuscitation of the Revanchists do Arghoslent (Estados Unidos) ficou injustamente fora da lista original — pelo menos se considerarmos a banda como death/black, como alguns fazem. Isso aconteceu por causa da comparação com seus álbuns anteriores, incluindo o último, de 2008, Hornets of the Pogrom, o meu favorito do projeto. Eles decepcionaram no retorno tão aguardado: o full-length de 2023 é o ponto mais baixo da carreira deles, tratando-se de álbuns. Mesmo assim ele não é ruim e deveria estar nesta lista. Atrás da produção precária e estranha do lançamento há excelentes riffs, o que deve ser considerado. Esse fator salva o lançamento.

Observação (10/03/2025): O álbum de estúdio What Once Was… …Shall Be Again do Goatmoon (Finlândia) também deveria estar na lista — inicialmente não gostei, mas depois ele se tornou muito agradável aos meus ouvidos, estranhamente.

25. NOENUM (Finlândia) – Fiery Path [EP] [Northern Heritage Records]

Noenum é uma banda incrível. Conheci essa dupla quando uma pessoa, nos comentários do YouTube, disse que um dos melhores vocais do black metal é de Spell, o vocalista deste projeto. Ele canta, Adept toca todos os instrumentos. Assim, em 2004, lançaram o clássico EP Black Esoteric Evangelium em 666 cópias pela Hammer of Hate Productions (sub-label da Kvlt), um trabalho extremamente apreciado pelos fãs do bom e velho black metal finlandês; todas as faixas são muito memoráveis para nós. Spell realmente é um dos melhores vocalistas de todo black metal, se você quer saber minha opinião. Em 2019 saiu a compilação autointitulada, contendo todo o material da banda; no ano de 2022, mais especificamente em 23 de dezembro, veio a grande surpresa: o primeiro álbum do Noenum, Heresiarch, que ninguém esperava, foi lançado de modo independente. Esse álbum não superou o BEE, mas como poderia? De qualquer forma, demonstrou-se excelente, um grande acréscimo para a discografia da banda. Em 2023 nos presentearam com o Fiery Path, este novo EP, o que entrou nesta minha lista. Uma curiosidade é que ele foi lançado pela Northern Heritage Records de Mikko Aspa, figura que admiro muito — com algumas ressalvas, claro. Uma nova logo para a banda? Não gostei muito da ideia. Mas seja como for, a sinceridade me obriga a dizer que houve uma decadência na música. A mixagem é estranha. O vocal está muito alto e as guitarras muito para trás; a bateria é meio apagada; o baixo, quase inaudível. Considere que uso um fone com assinatura em V. Os riffs são interessantes, têm outra identidade, mas não tanto quanto antes; uma atmosfera é criada, uma pena que não da forma mais perfeita. Para concluir, posso dizer que lembrarei deste EP de duas músicas, independentemente dos seus notáveis defeitos — Noenum é muito bom.

Faixa destacada: River of the Ancient Blood

24. OCULTAN (Brasil) – Rites of the Sitra Ahra [Live album] [Hammer of Damnation]

O Ocultan melhorou muito com o tempo. Muitos dos seus primeiros trabalhos são inaudíveis para mim, mesmo eu gostando de raw black metal e até de noise music. A banda paulista já publicou lives antes, porém o próprio Count Imperium assumiu que os trabalhos anteriores do tipo não foram bem executados — foi falado sobre isso e outras coisas em uma entrevista recente. Temos aqui uma viagem pela discografia do Ocultan, porém com uma qualidade bem melhor. A capa deste live album é linda; em realidade, fizeram um grande altar na Necropole Hall para esse show, o que tornou o vídeo desse material incrível. Sobre a música, além da qualidade técnica superior, notei principalmente o vocal insano de C. Imperium, o melhor vocalista que já passou pela horda. É uma das suas melhores perfomances vocais. Ele fez bem em assumir os gritos. O baterista não é da banda, mas fez uma apresentação incrível e que foi muito bem captada. Gostei do trabalho de guitarra apesar do inicial estranhamento. O baixo… o de sempre, certo? Fica para trás. Este é, talvez, o meu segundo lançamento favorito do Ocultan (o primeiro está nesta lista). Além disso, é sim uma excelente porta de entrada para novos ouvintes. Recomendo escutar vendo o vídeo, disponível até no YouTube.

Faixa destacada: Dragão Negro

23. PÉNOMBRE (Canadá) – Lueur Noire [Full-lenght] [Independente]

É simplesmente… pure black metal (e de segunda onda)! O que tenho mais a declarar? Claro, lembra bastante Burzum (Noruega), mas não é mais uma cópia barata, pelo menos não soou assim para mim. Tem uma pegada punk também. A atmosfera se mistura com a sujeira e devasta tudo. É black metal frio e penetrante; escutar isto é sofrer um ataque de Nazgûl. Pénombre é um projeto que parte da cena de Québec, com a qual não sou muito familiarizado apesar de conhecer alguma coisa. Penso que o black metal como imaginado por Vikernes seria exatamente assim — aqui não há uma tentativa falha de criar atmosfera, o objetivo é alcançado. Tive também a impressão de estar escutando algum material perdido das LLN, as quais admiro bastante.

Faixa destacada: Arme Blanche

22. MORBID PERVERSION (Brasil) – Infamous Dogmas of Sacrifice [Full-lenght] [Angel of Cemetery Records]

Este álbum foi uma surpresa para mim. Lembro que conheci o Morbid Perversion vendo um rapaz com uma camiseta deles na minha rua, aqui em Salvador. É uma banda soteropolitana. É war metal também. O primeiro full-length da banda pareceu genérico para mim, porém a evolução para este é algo muito notável. A própria intro é uma maravilha, bem Kastiphas — ele toca baixo aqui, não sei se também fez as músicas de teclado. Isso é incrível: war metal de qualidade com faixas de ambient à la Eternal Sacrifice (Brasil) muito boas, uma mistura fantástica. A produção também é muito melhor em comparação com o álbum anterior, mas as guitarras soam mais brutais e penetrantes, com um timbre perfeito para bestial black metal. Tudo é mais agradável, não há comparação. Deixe o incrível vocalista lhe guiar por esses vales obscuros.

Faixa destacada: Dark Spells of the Flesh

21. BOGSIDE SNIPER SQUADRON (Estados Unidos) – Demo 2023 [Demo] [Independente]

Não tive muito tempo para escutar essa demo, mas posso dizer sem sombra de dúvidas que ela é incrível — e talvez até merecesse uma posição melhor. A sonoridade lembra muito Arghoslent (Estados Unidos), uma banda de melodic death metal conhecida por causa, além de suas letras polêmicas que falam sobre supremacia branca e escravidão, de sua sonoridade melódica mas ao mesmo tempo crua e agressiva — banda essa do frontman do Grand Belial’s Key (Estados Unidos), uma das bandas mais cults do National Socialist Black Metal (NSBM). Como o novo álbum do Arghoslent (Estados Unidos), esperado por 15 anos, decepcionou várias pessoas (eu incluso), aqui está uma demo de um projeto que promete muito e que caminha mais ou menos nessa sonoridade, fazendo um black/death melódico de qualidade e agressividade.

Faixa destacada: Ash Rains at Warrenpoint

20. THULCANDRA (Suécia) – Hail the Abyss [Full-lenght] [Napalm Records]

Muita gente diz que Thulcandra é uma cópia barata de Dissection (Suécia). Eu não acho isso, vejo como um projeto fortemente inspirado nele mas que tem seu próprio charme. A produção é excelente, chega a ser melhor que as do Dissection (Suécia) — nisso não há o que reclamar da Napalm Records. Os clipes soam genéricos para metal extremo, o visual lembra symphonic metal também… seja como for, não tenho medo de dizer que gosto disso. Eu geralmente prefiro black e death metal com uma produção mais rústica, mas às vezes algo com produção mais detalhada funciona muito bem — nem que em apenas certas ocasiões, como este álbum que para mim é insuportável de ser escutado no calor. Hail the Abyss é, em suma, um melodic black/death fortemente influenciado pela tradição de Dissection (Suécia), Sacramentum (Suécia), Vinterland (Suécia) etc. que consegue ser bastante convincente.

Faixa destacada: Hail the Abyss

19. HØSTSOL (Noruega/Finlândia/Suécia) – Länge leve döden [Full-lenght] [Avantgarde Music]

Descobri esta banda enquanto explorava a discografia do Shining (Suécia). Estamos falando de um projeto de vários músicos de vários países… continuei pelo Niklas. Claro, há participantes de bandas boas que estão aqui, porém isso não me importa muito. Um acréscimo: me surpreendeu o fato de ver o nome de Andy LaRocque, o guitarrista do King Diamond (Dinamarca), como mastering aqui, uma grata surpresa — quer dizer, ele tem relação com o Mercyful Fate (Dinamarca), Death (Estados Unidos), Bethlehem (Alemanha), Soulreaper (Suécia) (de ex-membros do Dissection [Suécia]) etc., i. e., várias bandas que curto muito. Vamos ignorar esse histórico das pessoas envolvidas neste álbum? Aceito a proposta. De qualquer forma, é um full-lenght muito bom. A fórmula se repete: introdução à la filme de terror, atmospheric black metal e encerramento parecido com a introdução. São 5 músicas, 45 minutos. Não é algo muito inovador, mas nem por isso deixa de ser bom. Niklas Kvarforth é um dos meus vocalistas favoritos do black metal. A bateria tem sua identidade. O baixo é audível e satisfatório. Os riffs de guitarra são às vezes bastante memoráveis, mas às vezes muito esquecíveis. A produção, claro, é muito bem feita. Trata-se de um black metal atmosférico, um pouco puxado para o DSBM, que consegue ser ótimo em seu propósito. Sinto que o álbum foi feito para ser escutado sempre por inteiro — coisa que gosto de fazer. Escute o riff inicial da primeira música e veja se é isso o que você quer ouvir. Sim, para mim é muito bom.

Faixa destacada: As Seen Through the Eyes of the Prophet

18. NON EST DEUS (Alemanha) – Legacy [Full-lenght] [Noisebringer Records]

Mais um material que não tive muito tempo para absorver. O que tenho a dizer? Dizem que parece Mgła (Polônia), banda a qual não sou muito fã. Mas neste caso a atmosfera é sombria mesmo com a produção que achei detalhada… tudo flui muito bem, fico com um gosto bom na boca e um pensamento sombrio e calmo ao escutar cada segundo aqui. É black metal melódico muito bem feito. O membro único da banda, cujo pseudônimo é Noise, também tem outras duas bandas, o Kanonenfieber (com que tive pouco contato) e o Leiþa (com o qual tive… nenhum contato) — todos projetos alemães. É um álbum que dou play, deito na cama e fico deslizando mentalmente por entre os seus instrumentos, vocais profundos e melodias — isso quando não fico apenas pensativo ou simplesmente sentindo a frieza que emana daqui como que por uma neblina de um lugar mítico, sombrio e esquecido. Este álbum foi bastante elogiado pelas letras, mas não tive tempo de analisá-las profundamente — a ideia é mostrar os acontecimentos do Antigo Tratamento, porém sem o fator Deus. Interessante, penso. Talvez merecesse uma posição melhor — mas sou escrupuloso com listas.

Faixa destacada: Hiob

17. GRAVE DESECRATOR (Brasil) – Immundissime Spiritus [Full-lenght] [From Deepest Records]

O Grave Desecrator faz parte da tradição brasileira de black/death influenciada por bandas como Sepultura, Sarcófago e Mystifier. Esse estilo foi muito influente na formação, sobretudo, do war metal, que tem como banda “fundadora” (há controvérsias) o canadense Blasphemy, os Black Metal Skinheads. Gosto de ambos estilos (que se misturam, por vezes), mas nunca fui fã do Grave Desecrator… isso por alguma razão inexplicável (ou talvez por uma falta de razão, em sentido inexato). Tentei escutar o álbum mais famoso deles, o Sign of Doom, e não curti; insisti também escutando outras músicas. Apesar disso tudo, eu fiz muito bem em dar uma chance para este novo full-lenght. A guitarra é simplesmente penetrante! Ela soa como Antichrist (Canadá) ou como um show do Blasphemy (Canadá)! A produção é muito concordante com a música. Há até mesmo partes mais macabras, como na faixa “Missa Pro Defunctis” e no início de “Occult Bewitchment”, o que dá um toque especial a essa forma mais cacofônica de black/death metal. Seja como for, o vocal necro combinado com o timbre dessa guitarra já deixa tudo assombroso — e o resto dos instrumentos complementa isso perfeitamente. A composição mostra que é possível ressuscitar o saturado war metal.

Faixa destacada: Death Misery Ecstasy

16. DIABOLICAL FULLMOON (Polônia) – Resurrection of the Ancient Faith (Unholy Reborn Polish Black Metal Art) [Full-lenght] [Signal Rex]

Black metal. Segunda onda. The Temple of Fullmoon, Polônia. Tudo foi dito aqui sobre este lançamento. Esta banda não esconde sua inspiração no Temple of Fullmoon, vide Promo de 2021, onde a única coisa que se destaca na contracapa é a única que nela há (além dos nomes das faixas): a inscrição “Music dedicated to people who proudly support and represent the Polish Black Metal scene. Hail The Temple of Fullmoon”. Para admiradores do bom e velho black metal preto no branco de bandas polonesas como Graveland, Fullmoon e Infernum, aqui jaz um item bastante interessante. É raw, claro; apresenta uns teclados macabros também, com seu som de órgão que muito me agrada. Tem, para variar, uma ideologia por demais questionável. Este segundo álbum do Diabolical Fullmoon não é um trabalho inovador, assumo; mas, dentro da sua proposta, consegue ser muito bom. Incrível que esse álbum tenha se tornado o vídeo mais visualizado do canal do YouTube da Signal Rex (atualmente com 9 mil visualizações). Conheci a banda aqui, assim também escutei o seu primeiro full-lenght, excelente como este novo. Há um cover em cada full da banda e os dois foram parar no meu canal Undercover Black Metal. Uma ressurreição do clássico, um movimento de restauração — assim defino este trabalho.

Faixa destacada: Intro/The Fall of Israel

15. CLANDESTINE BLAZE (Finlândia) – Resacralize the Unknown [Full-lenght] [Northern Heritage Records]

Eu amo o Clandestine Blaze. Mikko Aspa, a mente por trás do projeto, é uma personalidade muito curiosa — e eu precisaria de mais espaço para falar do homem. Mas fato é que o CB tem uma identidade; ela continua de pé neste 12º full-lenght da banda. O álbum não é genial, há algumas faixas dispensáveis, para ser sincero. Seja como for, para um admirador da banda como eu, posso muito bem recomendar este material; nele tem várias partes bastante memoráveis, de uma crueza misturada com melodia que se torna marcante pela sua unicidade. Os vocais de Aspa também são muito bons e eles continuam os mesmos dos outros álbuns do Clandestine BlazeNâzgul, claro. Há aqui uma mistura do velho com o novo, uma síntese interessante para aqueles que tendem aos dois lados.

Faixa destacada: The Birth of the Sun

14. Promethean Gate, Inexistência, Werewolf Bloodorder, Windspirit (Brasil) – Sorceries of Blood and Iron [Split] [Hammer of Damnation]

Split incrível que apresenta a nova onda do black metal brasileiro, trazida pela Hammer of Damnation. Isso renderia um excelente texto, aliás. Warlord von Ravenclaw, ex-Evil (Brasil), retorna com o Werewolf Bloodorder (Brasil), sucessor espiritual da sua antiga (e lendária) banda; há aqui excelentes músicas do seu novo projeto, uma das quais é regravação de uma faixa do Evil (Brasil) (que foi parar também no UBM). O Windspirit (Brasil) estreia com uma faixa boa, mas não tão boa quanto as gravações do seu primeiro álbum (que citarei mais para frente); o Promethean Gate (Brasil) não me agradou tanto, para ser sincero; mas para mim quem se destaca aqui é o Inexistência (Brasil). Inexistência (Brasil) que vem neste ano de 2024 lançar seu primeiro full. Inexistência que aqui tem sua melhor faixa, “White Wolves’ Black Lair”. Realmente, esse projeto é uma resposta demorada e acertada a bandas do exterior como Satanic Warmaster (Finlândia) e Drowning the Light (Austrália). Eu recomendo o split inteiro, ele que nos faz ter devoção à nossa cena atual de black metal.

Faixa destacada: Inexistência – White Wolves’ Black Lair

13. KAEVUM (Noruega) – Kultur [Full-lenght] [Darker than Black Records]

Mais uma banda que lançou seu segundo álbum completo. Mais uma banda com uma ideologia questionável — mas neste caso mais oculta aos olhos públicos. Sem “mais”: Natur, o primeiro full da banda, já me agrada bastante; lembro de ficar hipnotizado com seus riffs e de cochilar logo após isso (um excelente cochilo, não quero dizer com isso que a música é chata!). Porém o mal de fazer algo muito cru é que nem sempre a alma está preparada para mergulhar nos ruídos e neles se perder. A produção de Kultur é melhor, mas não deixa de ser raw por isso, o que é um ponto excelente. Há passagens memoráveis quando nos atentamos ao instrumental, certamente; mas o que guia este novo lançamento da banda é o vocalista. Há um novo vocalista aqui. Há um dos melhores vocalistas de metal extremo de todos os tempos. Não estou brincando. A faixa “Gold Mit Uns” é uma das mais perfeitas quando o assunto é black metal, sem exagero; uma pena que o resto do álbum não é tão memorável quanto ela, apesar de continuar sendo ótimo. Percebe-se uma evolução macabra — não achei que isto seria possível no caso do já cult Kaevum

Faixa destacada: Gold Mit Uns

12. WHITE DEATH (Finlândia) – Iconoclast [Full-lenght] [Werewolf Records]

É complicado escutar um álbum e salvar todas as músicas dele. É complicado escolher qual música escutar quando todas são muito boas e têm 48 minutos quando reunidas. Mais um projeto que o Werwolf do Satanic Warmaster (Finlândia) se faz presente (hoje ele está ativo em 15 bandas); aqui essa lenda toca guitarra e faz backing vocals. Vritrahn, o vocalista e letrista do White Death, tem uma voz realmente incrível, que por sinal lembra a do próprio Werwolf. Esses dois finlandeses têm um projeto chamado… Vritrahn-Werwolf (Finlândia/Uruguai). Eu não tenho do que reclamar deste álbum. As melodias são muito marcantes. A produção é excelente. Ele é rápido e tem momentos lentos, uma excelente bateria guia tudo. O baixo cumpre seu papel, é pesado. Os teclados são discretos mas adicionem um toque a mais. Eu recomendo este full-lenght para quem não se incomoda de ficar hiperativo ao escutar um bom black metal agressivo, melódico e bem produzido (e nem por isso menos true).

Faixa destacada: Born from the Unholy Fire (Part II)

11. SHINING (Suécia) – Shining [Full-lenght] [Napalm Records]

Shining é uma banda de 1996. Seu líder, Kvarforth, se diz o criador do termo “suicidal black metal”, futuro “Depressive Suicidal Black Metal”, o DSBM (não vamos discutir a veracidade disso aqui). Seja como for, a banda tem um som muito único, mesmo quando a comparamos com outras de Depressive BM. Sua discografia é enorme. Só agora lançaram um auto-intitulado, após 27 anos, com seu 12º álbum de estúdio. O frontman afirma que estão entrando em uma nova fase… questionável, talvez. O trabalho anterior soa mais técnico, mais exibicionista. Este soa mais oculto, mais Shining, de certo modo. A banda tem sua identidade que deve ser mantida; eles conseguiram inovar dentro disso. Não é muito diferente dos outros álbuns, claro; há quem diga que eles estão copiando o próprio som. Não acho. Este álbum, como dito, é mais Shining. Ele é um novo capítulo dessa grande banda que consegue soar black, doom, progressive e até mesmo jazz. Quanto aos clipes, eles são… Niklas Kvarforth. Não, Niklas, não ocorreu uma grande mudança — tenho que discordar de você. Mas para um fã de Shining como eu, que já está cansado de repetir as mesmas músicas, um presente foi dado — somos gratos por isso.

Faixa destacada: Allt För Döden

10. AKITSA (Canadá) – Devenir le diable [Full-lenght] [Hospital Productions]

Akitsa é uma banda muito citada em certos meios. Eu, porém, nada tinha escutado deles antes. Esta foi minha introdução. Logo após isso eu fui atrás de outros materiais do projeto — com motivo. A one man band de Quebec fez o básico aqui, mas não basta dizer isso. Pouquíssimas bandas de black metal fazem o básico tão bem quanto o Akitsa, o que torna a banda incrível, visto que há infinitas bandas tentando realizar essa tarefa. Todas as faixas são muito memoráveis — até pela sua simplicidade e repetição. Os vocais variam às vezes, tome o exemplo de “Caveaux Poussiéreux”, onde eles soam desesperados, algo mais DSBM; porém a clássica voz aguda do Akitsa não está presente. A performance do vocalista é muito boa e tem sim alguma unicidade, mesmo soando mais tradicional. A produção combina com o som, não parece algo impensado; é bom que os instrumentos sejam audíveis nestas composições, então assim é (até o baixo, instrumento que costuma ficar para trás nas mixagens de black metal). Há muita identidade na simplicidade — o que é extraordinário. Este álbum me surpreendeu mais ou menos como escutar Judas Iscariot (Estados Unidos) pela primeira vez. Recomendadíssimo para qualquer apreciador do black metal de segunda onda. Recomendadíssimo para quem não cansa do clássico.

Faixa destacada: Mon Esprit S’efface

9. CAVALERA CONSPIRACY (Estados Unidos/Brasil)Morbid Visions [Full-lenght] + Bestial Devastation [EP] [Nuclear Blast]

Regravação de um clássico… de dois clássicos, melhor dizendo. Agrupei estes dois lançamentos em uma posição pois ambos foram lançados juntos e são, de certo modo, quase a mesma coisa e, também, para poder adicionar mais álbuns à minha lista — 2023 foi um ano absolutamente incrível para o black metal, para mim é horrível tirar algo deste texto. Bestial Devastation e Morbid Visions do Sepultura (Brasil) dispensam apresentações para aqueles que gostam de metal extremo em geral. Não vamos discutir os motivos por trás dessa regravação, mas apenas apreciá-la. Eu amo os originais de 1985 e de 1986, eles têm uma crueza que dá um aspecto de brutalidade a mais; o incrível é que uma gravação mais refinada mantém a mesma agressividade. Em geral, regravar clássicos é horrível, mas aqui está uma feliz exceção. As guitarras têm, mesmo assim, um aspecto de sujeira, um timbre macabro, muito bem escolhido; os vocais têm um reverb que deixa a coisa mais cavernosa ainda; a bateria é muito clara mas nem por isso menos raivosa; o baixo ajuda a criar uma atmosfera de caverna e consegue ser um perfeito complemento. Os solos soam mais “bonitos” (ao contrário dos originais estourados e estridentes), mas acho que isso combina com o resto. Como um todo, aqui há uma pérola incrível. Esta relíquia ficará para a história — será uma nota de rodapé ao original, tudo bem, mas uma nota de rodapé das mais fantásticas. É uma regravação tão boa quanto a que o Nokturnal Mortum (Ucrânia) fez de Lunar Poetry em 2022. Às vezes não sei qual é a melhor versão.

Faixa destacada (Bestial Devastation): Necromancer
Faixa destacada (Morbid Visions): War

8. WINDSPIRIT (Brasil) – Windspirit [Full-lenght] [Hammer of Damnation]

Após sua participação no split já citado neste texto, o Windspirit finalmente lançou seu primeiro álbum e segundo material, um autointitulado. Demorei para aproveitar bem este álbum, isso tenho que assumir. Esta one man band faz um melodic black metal com vocais roucos que são mais death metal que black. Há um culto à natureza neste local. O visual não esconde isso. Como é perfeito caminhar por um lugar verde escutando estas sinfonias, não importando se faz frio ou se faz calor! Trata-se de mais um grande acerto da Hammer of Damnation. A guitarra é o principal aqui. A guitarra tem espírito. Ou ela é um instrumento para um mundo mais espiritual que este, não sei afirmar com precisão. Fiquei me perguntando por bastante tempo qual faixa escolher para pôr em destaque. Foi difícil… mas a coisa melhora quando se está perto de várias árvores. É um álbum introspectivo. É um álbum “naturalista” (ênfase nas aspas). Esteve comigo em um momento marcante, sendo um companheiro. Escrevi um poema escutando este álbum do Windspirit. Fato é que o black metal é a verdadeira música da natureza, como muitos dizem.

Faixa destacada: Echoes in the Night

7. OCULTAN (Brasil) – Trevas [Full-lenght] [Black Metal Store]

O melhor álbum do Ocultan. Esta banda paulista foi, até onde sei, a primeira de metal no mundo a falar sobre Quimbanda, a qual os membros são adeptos. Curioso. Eu não conseguia gostar do Ocultan. Este álbum, que inicialmente me soou ruim, se tornou, então, genial. O som da guitarra é cavernoso, sujo, feio, atmosférico… mas não tem tanto ruído assim. Estranho, como explico? É perfeito. Os riffs então são fantásticos, parece que foram escritos pensando exatamente nesse timbre de guitarra. Um sem-número de melodias memoráveis. Você é jogado em um caixão. Ele está fechado, mas você ainda pode sentir o cheiro nojento da terra molhada por uma chuva de desgraça. Escuta as minhocas caminhando, desesperadas. A bateria soa tribal e macabra. É grave. Como se alguma entidade satânica estivesse despertando e clamando aos seus, por meio de um tambor, que façam o ódio fluir em seus malditos corações contaminados pela escuridão. É ritualística. Count Imperium definitivamente é o melhor vocalista que já passou pela horda, isso além de ser um dos melhores do mundo quando falamos de black metal. Seu canto, até em português, é incompreensível: um demônio está tentando se comunicar mas tudo o que pode transmitir é medo ao ouvinte. Ele é imponente e faz tremer quem tenta escutar. É monstruoso. Ele está no inferno, condenado, fala com uma voz rouca e faz eco com ela, que é a própria maldição. O baixo se perde nesse mar de desolação, satanismo e morbidez, por vezes; ele é sutil, mas contribui com a atmosfera cavernosa deste lançamento. Este álbum fez eu amar profundamente o Ocultan, especialmente seus novos materiais. Se esta divagação não quis dizer nada, então nada mais quer — outra dimensão foi alcançada.

Faixa destacada: Trevas

6. M8L8TH (Rússia) – Nekrokrator [Full-lenght] [Militant Zone]

M8Л8ТХ (ou M8L8TH) é, sem sombra de dúvidas, uma das bandas mais polêmicas de toda a história do black metal. Com o seu Militant Black Metal, tornaram-se extremamente cult entre ouvintes de NSBM. Suas conexões com o Batalhão Azov e com outros grupos controversos, aliás, lhes renderam fama para além da bolha daqueles que se interessam pelos subgêneros musicais mais obscuros. É um projeto com sonoridade única. Não posso falar muito sobre ele por causa da minha relativa pouca experiência com a banda; seja como for, desde o seu primeiro full-length percebi algo único nela. Enquanto Чёрным крылом/By the Wing of Black é agressivo e rústico sem igual — entrando, na minha opinião, para a lista de bandas de black metal mais brutais de todas, ao lado de nomes como Bethlehem (Alemanha) do Dictius Te Necare, Silencer (Suécia), Goatmoon (Finlândia) do Death Before Dishonour, Anaal Nathrakh (Reino Unido) etc. — os álbuns mais recentes do M8Л8ТХ são mais sofisticados. Eu sempre gostei mais do primeiro full-length; via identidade na banda após esse lançamento mas nada dela grudava o suficiente em minha mente. Este novo álbum mudou a minha opinião sobre o M8Л8ТХ. Isto aqui, além de ter, claro, a presença do Warlord von Ravenclaw (ex-Evil [Brasil], atual Werewolf Bloodorder [Brasil]) como vocalista convidado em uma faixa, se mostrou profundamente único — pelo menos para mim que não escuto muito este projeto. A produção é muito boa, de excelente qualidade e mostra várias sutilezas incríveis que complementam o todo. As variações vocais do cantor são algo muito incrível de se notar — e eu gostei mesmo dos seus gritos mais agudos, que lembram, de certo modo, os de Dani Filth (Cradle of Filth [Estados Unidos]). Os vocais de Alexey passam tanta identidade quanto os de Ronald “Wolf” Möbus do Absurd (Alemanha), algo muito notável se tratando de black metal. O baixo é audível. A bateria é muito satisfatória. Os riffs têm uma magia toda reluzente. Os teclados dão um toque sinfônico e fantástico. Vocais incríveis e cheios de variação desde os limpos até os rasgados, contando até mesmo com vocalistas convidados (como o já citado Warlord e com o BlackGoat do lendário Goatmoon [Finlândia]). A capa é uma das mais icônicas do gênero. Eu poderia questionar a ideologia da banda, mas isso não está em questão. Não tive tempo de ler as letras, mas farei isso assim que possível. Eu deixei este full-length abandonado para ser escutado apenas mais recentemente, o que foi um erro. Preciso absorvê-lo mais. Enfim, a palavra que menos define este álbum é ‘genérico’ — não, definitivamente não!

Faixa destacada: Тинг сновидений

5. ETERNAL SACRIFICE (Brasil) – Inclinavit Se Ante Altare Diabolvs Est Scriptor… Regere Sinister [Full-lenght] [Black Hearts Records/Blasphemy Productions]

Isto é de Salvador, Bahia! Lugar onde nasci; sim, estamos neste nível — foi o que fiquei pensando. O clássico Eternal Sacrifice, banda de 1993, vem com mais um novo trabalho. É um album dividido em duas partes. O primeiro disco tem 49 minutos; o segundo, 53. Sim, quase duas horas de música absolutamente fantástica. É, talvez, o primeiro álbum duplo do black metal brasileiro em todo esse tempo. Eu tive que escutar infinitas vezes essas quase duas horas para poder absorver um pouco do material aqui presente; não sei se consegui. Sequer houve lançamento digital. Vale a pena comprá-lo, certamente, com seu digibook cheio de páginas que são colírio para os olhos. Outro ponto é que houve muitos elogios às letras deste álbum conceitual, mas infelizmente não tive muito acesso a elas. Nas palavras de M. Prophanator, “este álbum, na realidade, é um poema dividido em atos e que narra uma rápida passagem sobre um andarilho que recebe um desafio, por um pacto, onde ele se depara com Ísis, uma virgem de corpo e alma que iria se tornar a vítima de sua adaga. Para esse objetivo, o andarilho irá perseguir a sua vítima, observá-la, mapear a sua rotina e escolher o melhor momento para envenená-la em sua própria casa […]” — a partir daqui a narrativa é construída. A horda vem com um novo visual. A sua clássica logo não está na capa, uma bem mais bonita foi feita especificamente para o novo lançamento (ela, aliás, lembra bastante uma do Satanic Warmaster [Finlândia]). Uma logo perfeita para uma capa perfeita — como ignorar a arte de capa? Ora, quanto à música, não é um trabalho cansativo — um absurdo consumado. O som é um epic e talvez symphonic black metal, isso com influências de, pelo menos, doom e heavy metal. Mas, assim como os títulos enormes, a coisa não é assim toda simples. Continuando, há uma utilização extraordinária de três idiomas: o latim, o inglês e o português. Tem muita — muita! — variação na voz também. Existe o vocal de “The Pact”, o padrão; a medonha voz limpa e sofrida presente no começo de “The Invocation”; o backing vocal forte e reprimido presente em, por exemplo, 05:20 da mesma faixa; o narrador macabro de 05:23 ainda da faixa citada; o backing vocal destemido de 06:00 de “The Invocation” (sim, de novo!); os gritos odiosos e típicos de uma serpente de 06:03; o narrador calmo, frio e que parece ocultar algo, presente na introdução de “The Pact”; o vocal mais gritado e sofrido da primeira metade de “Sacrifice”; 04:07 também de “Sacrifice”, uma narração rosnada; as risadas macabras de 07:28 da mesma música; o discurso black metal triunfante de 07:28, acompanhado pelas risadas; e, quem sabe, ainda vários outros. O timbre das guitarras foi bem pensado. Os riffs, acompanhando, são muito memoráveis. A bateria soa um pouco baixa, mas isso faz o som ser mais “misturado”, criando uma atmosfera mais complexa, então talvez tenha sido a melhor opção para esse tipo de música. A bateria é muito boa; é o que se espera de um epic black metal, eu diria. O baixo é o instrumento que menos se destaca — tudo bem, estamos falando de black, mas não entendi quem o classificou como muito pesado (e eu uso um fone basshead!). E… Kastiphas! Ah, Kastiphas… o homem, o mito. Hipnotizante é ver os vídeos dele cantando, tocando baixo e teclado ao mesmo tempo nas lives do Mystifier (Brasil)! Impressionante ver seus cabelos cacheados em headbanging; incrível ver uma pessoa tão estilosa, de pele escura, usando corpsepaint/warpaint — nem o Caller of the Storms lhe superaria, caso usasse uma. Leandro Kastiphas toca teclado aqui. Eles fazem um complemento perfeito. Não há Eternal Sacrifice sem teclados. Às vezes há até… som de órgão! — sou fanático por esse instrumento, claro. Eu não tenho palavras para descrever este álbum, apenas posso dizer que ele é um orgulho para minha terra — se Sorel tivesse sido soteropolitano ele estaria, quem sabe, sorrindo com infinita alegria em seu túmulo.

Faixa destacada: The Invocation (On the Mystical Stones a Perfect Night in the Darkness)

4. DER TOD UND DIE LANDSKNECHTE (Alemanha) – Wir fürchten weder Tod noch Teufel [Full-lenght] [Blasphemous Terror Records]

Aqui está um grande marco. Acho, sinceramente, que Ronald “Wolf” Möbus é um dos maiores vocalistas de todos os tempos. Quis, então, checar seu novo projeto, iniciado em 2019. Com a separação do Absurd (Alemanha) em duas bandas, Wolf inicialmente se desligou dessa questão; ele parece ter focado neste projeto. Como veremos mais para frente, Wolf terminou por ficar do lado do seu irmão, Hendrik “JFN” Möbus… e digo isso pois, para mim, o Absurd (Alemanha) é, musicalmente, a melhor banda de black metal de longe. E Wolf contribuiu (e muito) para isso. Ele aqui faz os vocais, perfeitos como de costume; a surpresa, na minha visão, está em Paul “Bile” Morgner. Ele já tocou bateria ao vivo para o Absurd (Alemanha) antes; também fez vocais para o Halgadom (Alemanha). Mas aqui ele toca todos os instrumentos — com perfeição. Todas as músicas deste álbum já são clássicas; se qualquer uma delas tivesse sido lançada em um single, certamente teria, mutatis mutandis, quase o mesmo efeito. A diferença está no fato de que tudo pertence a um só trabalho, ao primeiro full-length de Der Tod und die Landsknechte. Há até mesmo um cover de Satanic Warmaster (Finlândia) aqui, da célebre “Legion Werwolf”. É o melhor cover de SWM. Neste full a guitarra tem um som imersivo, que joga o ouvinte na música e lá afoga ele; mas em geral a coisa soa alegre e triunfante, como uma versão mais épica e brutal de Ultima Thule (Suécia). Folk/pagan black metal de qualidade insuperável. Não há teclados aqui, mas as guitarras conseguem criar, sozinhas, uma atmosfera mágica e que lembra um pouco o feeling do Nokturnal Mortum (Ucrânia), porém mais melódico. Lembra pouco black metal, é mais folkish. Definitivamente é metal. Todas as músicas são extremamente memoráveis; na segunda audição já é possível identificar todas as faixas e, inclusive, acima de tudo cada uma tem identidade própria. O baixo é apenas um complemento aqui, dando uma profundidade a mais no som já fortemente imersivo; quando em posição de destaque, rouba a cena. A produção perfeita ajuda nisso. A bateria é outro ponto forte de Bile — começamos nossa audição, muito felizmente inclusive, com “In alter Frische” impondo respeito. Consigo separar cada parte da bateria perfeitamente, assim como o baixo, uma combinação extremamente satisfatória. Os vocais de Wolf não mudam aqui — e nem precisam. Ainda por cima tudo está em alemão, até “Legion Werwolf” foi traduzida para a língua pátria; há quem louve o norueguês, o finlandês ou o sueco quando encaixados no black metal, e com razão; eu, porém, afirmo que a melhor língua para esse tipo de música é a alemã. Essa escolha dá um toque a mais de romantismo, nacionalismo, magia e brutalidade; Wolf faz algumas das melhores performances vocais de todos os tempos quando lida com seu próprio idioma. Há algum feeling de “viking bêbado” por trás de tudo, por assim dizer, mais ou menos como em Svea Hjältar do Ultima Thule (Suécia), mas com a violência de Rock gegen Oben do Landser (Alemanha) e com o romantismo do Blutgericht do… Absurd (Alemanha) (claro!); acrescente a isso mais velocidade, alegria, melodia e ritmo “dançante” (aspas!) e tenha como resultado mais ou menos este álbum — espero não ter brisado muito. Em suma, uma obra-prima que ficará para a história do black metal — especialmente para fãs de Absurd (Alemanha) e de pagan BM.

Faixa destacada: (Blutüberströmt) Zu den Sternen hinauf

3. VARGRAV (Finlândia) – The Nighthold [Full-lenght] [Werewolf Records]

Symphonic black metal costuma ser muito bom ou muito ruim. Alguma das duas opções. Vargrav é perfeito. Conheci essa banda vendo os vídeos mais visualizados do YouTube da Werewolf Records; Netherstorm e Reign in Supreme Darkness, seus dois primeiros álbuns, são dois dos vídeos mais visualizados daquele canal, fato interessante. O meu favorito até então era Reign, que conseguiu trazer um symphonic black metal fortemente inspirado em Emperor (Noruega) soar… melhor do que o próprio Emperor (Noruega)! Isso é fantástico, de fato. Então lançaram o EP/single Encircle the Spectral Dimension, dessa vez com o vocal do Werwolf do Satanic Warmaster (Finlândia), feliz surpresa; este lançamento, porém, não me pareceu melhor, musicalmente falando, do que Reign — infelizmente. A coisa mudou quando o full-lenght, o terceiro da banda, foi publicado. Sua introdução, um ambient (ou algo do tipo), é completamente incrível e mágica, como uma trilha sonora de algum filme gótico de fantasia, se me faço compreensível; um convidado toca violino nela. O álbum conta ainda com mais três faixas nesse estilo — atenção especial ao encerramento do álbum, “Ghostlands”, com seus quase 10 minutos. Voltando à ordem, “Through the Woods of Breathing Shadows”, que lhe sucede e é a segunda música do álbum, também me impressionou muito. Para começar, os teclados soam menos Emperor (Noruega), são de certo modo mais discretos e, ainda, tem mais identidade própria. A bateria está incrivelmente melhor produzida em relação ao full anterior — e isso faz toda diferença para mim, que gosto de escutar claramente suas batidas. A violência, antes inimaginável, de “The One Who Lurks Beyond the Starscape” deve-se muito ao trabalho do baterista. Isso tudo já estaria muito bom, mas teve mais alterações. As guitarras soam mais claras, o que acrescenta mais preenchimento (mas nem por isso perdem suas características tipicamente symphonic black metal, sendo um pouco para trás na mixagem); têm um timbre diferente. O baixo, como esperado, fica bastante para trás na mixagem final, além de misturado; creio que ele dá mais contribuição à atmosfera geral do que nos parece escutando a obra já finalizada. Ironicamente, minha faixa favorita tornou-se “Encircle the Spectral Dimension”, que foi uma música lançada no EP do mesmo nome, apenas com uma produção inferior (especialmente da bateria). Certo, aqui assumo que ler Tolkien escutando este full-lenght é uma experiência inefável. Este álbum é um rompimento, prova disso é sua capa, menos padrão para Vargrav; prova mais forte é o fato de V-KhaoZ (homem por trás, aliás, do extraordinário Druadan Forest [Finlândia]) ter chamado mais membros para banda — antes ele tocava todos os instrumentos e fazia os vocais, hoje apenas comanda os teclados. Apesar disso, o novo trabalho também é continuação: vemos um magnífico castelo gótico sendo construído — termino esta breve resenha assim.

Faixa destacada: Encircle the Spectral Dimension

2. WEREWOLF BLOODORDER (Brasil) – The Rebirth of the Night and the Fog [Full-lenght] [Hammer of Damnation]

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O black metal brasileiro está vivo. Este é um dos seus melhores períodos, se estamos falando apenas de lançamentos. É minha opinião. Warlord von Ravenclaw, para além dos seus trabalhos na Hammer of Damnation, Black Metal Store, Necropole Hall, Black Metal Terror etc., está de volta com sua música. Ele, que formou o Evil (Brasil) — uma das bandas mais importantes do cenário black metal brasileiro como um todo —, criou o Werewolf Bloodorder para ser — pelo menos inicialmente — o sucessor espiritual de seu antigo projeto. Está sozinho, contando apenas com músicos de sessão. No momento a banda só tem materiais de altíssimo nível e, claro, eu teria que escrever muito para falar um pouco sobre sua discografia; seja como for, prova de sua perfeição é ela já ter aparecido antes nesta lista, sendo, pelo menos, a segunda melhor participação no split Sorceries of Blood and Iron (o ítem 14 daqui); além disso, até o momento a banda já apareceu 6 vezes no Undercover Black Metal, com regravações de composições do Evil (Brasil) e covers de Funeral (França) e Osculum Infame (França). É notável, além disso, a estética absurda do Werewolf Bloodorder ao vivo, na minha opinião muito superior à do finado Evil (Brasil). Este álbum apresenta uma melhor produção em relação aos lançamentos anteriores da banda, é claro; o projeto que nasceu para retornar ao “black metal preto no branco” do antigo projeto do seu frontman conseguiu algo além disso, mesmo com a proposta de fazer um black metal fortemente noventista. Para começar, sua capa é magnífica, sendo sem logo nem escrita alguma, mostrando apenas uma pintura (de muito bom gosto) de soldados em marcha, tendo ao lado deles, em chamas, uma mesquita, uma sinagoga e uma igreja; o símbolo clássico do WBO está em uma bandeira levantada pelos guerreiros; vê-se a lua cheia e morcegos no céu escuro. Tudo em preto e branco na arte, claro. As samples de Mazzaropi chamam atenção, são excêntricas (no bom sentido do termo); a bateria interessantemente não soa genérica para black metal, mesmo sem ter aquele conhecido exibicionismo técnico, na verdade ela parece bastante marcial; as guitarras soam cruas e bem produzidas, mas têm um aspecto mórbido e distante, que, aliás, muito combina com os memoráveis riffs daqui; o baixo, como no black metal noventista, fica bastante para trás; os vocais daqui são, quem sabe, a melhor performance de Warlord cantando. A voz soa rouca, com um ódio oculto, uivada e dominante, como se estivesse entoando algum grito de guerra (e isso combina bastante com a bateria); os sintetizadores fecham o time com chave de ouro, aparecendo uma vez ou outra para aperfeiçoar a atmosfera. A gravação às vezes me parecia um pouco estranha — assim como me ocorreu ao escutar o álbum do Ocultan (Brasil) citado antes —, mas isso passou; a HoD Rex acerta outra vez. A ordem de apresentação da música é outro ponto forte. “Imperial Blood Order” começa o álbum de forma matadora, com sons odiosos e hipnotizantes logo após uma brevíssima sample de Mazzaropi. É incrível como essa música muda no final, encerrando perfeitamente. Isso também acontece com “Fullmoon Spectres Marches over the Falling Zion”, a faixa mais longa e lenta do álbum, que tem um final fenomenal. “Southern Thrones in the Moons Shadows”, a terceira música em ordem de aparição, é a mais rápida, curta e “reta”; trata-se de uma regravação de uma composição do Evil (Brasil) que foi publicada antes apenas em “demo”. O choque do segundo som com o terceiro é interessante, criando uma ruptura muito notável. Um dark ambient, “Triumphant Desolation (We Leave a World in Flames)”, finaliza o full-lenght deixando uma sensação de nostalgia (talvez dos anos 90), tristeza (também pelo álbum ter determinado) e de missão cumprida (finaliza-se uma obra prima); é, claro, a faixa mais diferente daqui. Outra curiosidade é que “Thy Spring Will Never Come” seria originalmente publicada no novo álbum do Evil (Brasil) que nunca saiu, “Vrill’s Power Syndicate”. Por fim, digo que recomendo este gigante trabalho a todos os apreciadores do bom e velho black metal noventista — o atemporal, o de sempre.

Faixa destacada: Spell of Hatred

1. ABSURD (Alemanha) – Das Heer aus dem Dunkel [EP] [Darker than Black Records]

O Absurd (contando o original, o de Unhold e este de JFN) lançou seu melhor material em 2022, o álbum Schwarze Bande — meu preferido em toda história do black metal. Foi assim que Hendrik Möbus/JFN voltou a “participar” da banda, com uma aparição relâmpago de infinita qualidade. Este EP não foi relâmpago, mas a qualidade dele é inegável. Achei que o primeiro colocado seria o Werewolf Bloodorder (Brasil) por bastante tempo, porém quando os Tyrants of German Black Metal chegaram tudo mudou. Não falemos da ideologia do Absurd e nem de suas polêmicas anedotas; o que me interessa é exclusivamente sua música — e a parte artística das letras, como ocorreu com as fantásticas linhas de SB. Não terei espaço para analisar com muitos detalhes este lançamento neste texto, infelizmente. De qualquer forma, começamos o novo EP com uma intro, uma recitação com vocal de black metal e muito reverb, acompanhado por um dark ambient que soa cinematográfico — deve ser lindo começar um show assim, realmente. Naturalmente a comparamos com “Marsch aus dem Untergang (Intro)” e “Ruf in die Finsternis (Outro)” do último full-lenght da banda. A atmosfera está criada. Assim, avançamos para “Begraben für die Ewigkeit”, faixa que já nos mostra a diferença deste EP para Schwarze Bande. As guitarras soam menos RAC, isso mostra que Widar (Bilskirnir [Alemanha]) consegue compor vários tipos de música (esta é a mesma formação de SB, mas só agora foi revelada); elas são triunfantes e têm algo de apocalípticas; a bateria soa mais black metal com seu ritmo veloz e blast beats. Tenho que dizer que amo os vocais de JFN, eles saem muito bem também neste tipo de composição mais rápida — apesar de serem melhores em músicas mais lentas e, também, com produção mais sofisticada, como ocorreu em SB. A letra maravilhosamente se conecta não apenas com a da próxima música, “Apokalyptische Auferstehung”, mas com todo o resto do trabalho, formando uma única história. É um EP conceitual. Falando da próxima faixa, é incrível como aqui há um certo feeling de Schwarze Bande misturado com a predominante agressividade de Weltenfeind. Ronald “Wolf” Möbus faz — absurdamente bem, vale salientar — os vocais aqui, como convidado; encerra-se a suposta inimizade entre eles, mas não falarei disso neste momento — aguardemos a oportunidade de um maior texto. As duas primeiras músicas (excluindo a intro) são as mais rápidas do álbum, aproximam-se mais de Weltenfeind; a segunda parte, mais cadenciada, soa um pouco mais próxima de Schwarze Bande, apesar da enorme diferença para com o full-lenght de 2022 — os riffs são muito distintos, acima de tudo. A “segunda parte” começa, então, com a faixa título: “Das Heer aus dem Dunkel”. É um pouco mais cadenciada, não tem aquela tempestade de blast beats presente no “primeiro capítulo”, mas nem por isso é menos brutal. É sádica. As letras do Absurd de Hendrik são doentias. São de pura loucura. Ele confessa isso, é seu objetivo; torna-se imprescindível acompanhar lendo a parte escrita. Aqui a coisa soa mais repetitiva, como se os pensamentos mais doentis invadissem a mente e levassem consigo um eco infernal. A quinta música, “Im Rausch der Zerstörung”, é a que mais parece com as de SB, especialmente com “In Blut geschrieben”; é a música mais lenta daqui e a minha segunda favorita do EP. O outro, para finalizar, continua no estilo da intro deste EP e da introdução e do encerramento de Schwarze Bande. Infelizmente não é possível falar muito mais sobre essas composições aqui, mas há bastante coisa para ser explorada, sem dúvidas. Uma coisa fácil de perceber neste trabalho é sua produção, que soa, de modo geral, pior: a bateria é mais crua, o que lhe dá agressividade extra mas que não me agrada tanto quanto a do full, mais fácil de ser dissecada; o vocal de JFN parece com menos força e variação; o baixo é mais inaudível — uma pena, pois é um dos pontos fortes, em minha opinião, do álbum; contudo, para não ser um completo arauto da discórdia, tenho que dizer que as guitarras mais cruas e altas na mixagem combinaram bastante com esse Absurd mais rasgante — elas me fizeram lembrar de Weltenfeind, da formação antiga do projeto, e de Kosherat, do Grand Belial’s Key (Estados Unidos). Apesar do Absurd ser uma instituição maior que seus membros e que tem sua própria identidade, sinto que não querem fazer uma cópia de seus próprios trabalhos; sinto também que essa é a melhor fase da banda. O projeto agora tem uma formação completa e que consegue executar uma música mais complexa; compõem dessa forma — e com o acréscimo da identidade extra. Espero ansiosamente o lançamento do próximo EP Prana Atma — o Brasil está indo bem nessa área, com a Hammer of Damnation tendo o boxed set Der Ewige Krieg/The Eternal War, com 17 cds da banda, além de venderem uma versão digipack exclusiva de Schwarze Bande etc.… Está sendo lançado um boxset exclusivo de Das Heer em nosso solo. Enfim, a devastadora capa nos informa: menos melancolia, mais ódio; de qualquer modo, mais Absurd — isso quer dizer perfeição musical.

Faixa destacada: Apokalyptische Auferstehung

schedios.art.blog
Rodrigo C. Souza

Lista:

1. ABSURD (Alemanha) – Das Heer aus dem Dunkel
2. WEREWOLF BLOODORDER (Brasil) – The Rebirth of the Night and the Fog
3. VARGRAV (Finlândia) – The Nighthold
4. DER TOD UND DIE LANDSKNECHTE (Alemanha) – Wir fürchten weder Tod noch Teufel
5. ETERNAL SACRIFICE (Brasil) – Inclinavit Se Ante Altare Diabolvs Est Scriptor… Regere Sinister
6. M8L8TH (Rússia) – Nekrokrator
7. OCULTAN (Brasil) – Trevas
8. WINDSPIRIT (Brasil) – Windspirit
9. CAVALERA CONSPIRACY (Estados Unidos/Brasil) – Morbid Visions + Bestial Devastation
10. AKITSA (Canadá) – Devenir le diable
11. SHINING (Suécia) – Shining
12. WHITE DEATH (Finlândia) – Iconoclaust
13. KAEVUM (Noruega) – Kultur
14. WEREWOLF BLOODORDER, PROMETHEAN GATE, WINDSPIRIT, INEXISTÊNCIA (Brasil) – Sorceries of Blood and Iron
15. CLANDESTINE BLAZE (Finlândia) – Resacralize the Unknown
16. DIABOLICAL FULLMOON (Polônia) – Resurrection of Ancient Faith
17. GRAVE DESECRATOR (Brasil) – Immundissime Spiritus
18. NON EST DEUS (Alemanha) – Legacy
19. HØSTSOL (Noruega/Finlândia/Suécia) – Länge leve döden
20. THULCANDRA (Suécia) – Hail the Abyss
21. BOGSIDE SNIPER SQUADRON (Estados Unidos) – Demo 2023
22. MORBID PERVESION (Brasil) – Infamous Dogmas of Sacrifice
23. PÉNOMBRE (Canadá) – Lueur Noire
24. OCULTAN (Brasil) – Rites of the Sitra Ahra
25. NOENUM (Finlândia) – Fiery Path

*****

Países*:

Brasil: 9
Finlândia: 5
Alemanha: 3
Suécia: 3
Canadá: 2
Estados Unidos: 2
Noruega: 2
Polônia: 1
Rússia: 1

*O Cavalera Conspiracy consta como Brasil/Estados Unidos. O Høstsol é Noruega/Finlândia/Suécia. Nestes casos cada país envolvido ganha um ponto.


Uma resposta a “2023: Os 25 Melhores Lançamentos de Black Metal”

  1. Meu fofinho

    Curtido por 1 pessoa

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